Gratidão

GRATIDÃO

Sou grato por tudo,
pelas pessoas que conheci,
pelos amores que conquistei,
pelas almas que marquei,
pelos lugares que desbravei,
pelos amigos que fiz,
pelos livros que li,
por minha família que me mantém firme,
pelo amor que me fortalece e incentiva em não desistir dos meus sonhos.

Sou grato pelas minhas inquietações,
convergentes ou divergentes,
grato pelos sentimentos,
pelos encontros e desencontros,
pelas rodoviárias e aeroportos cheios ou com quase ninguém,
pelas músicas mais variadas que fazem do meu gosto musical muito peculiar…

Grato pela vida,
grato por viver,
grato,
grato,
Obrigado!

José Marques, Maceió 30 de junho de 2017

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Amor

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Amor
Amores
Amando
Amo
Amarei
A amada
Amando
Amei
Amor

JM
Maceió – 25 de junho de 2017

Viva Sant’Ana

festa

O dia está cinzento em Santana do Ipanema, choveu logo cedo, o que não me ajudou muito para acordar. Minha sorte é que estou de férias da escola. O meu compromisso será às 9h na Igreja Matriz, preciso chegar cedo para preparar minha túnica e todos os objetos sagrados para a missa solene da padroeira.

Minha roupa está pronta sobre a cama, mainha acorda cedo e gosta de tudo certinho, a camisa social branca e a calça preta estão passadas, o sapato social engraxado. Tudo pronto, vou para a Igreja.

– Já vai, meu filho?

– Sim, mãe. “Bença”.

– Deus lhe abençoe. Aproveite e antes de ir, tome café. Essa missa demora muito e depois você fica com fome e passa mal.

Alimentado, subi com coragem e fé a ladeira que leva a Matriz, ao virar a esquina o parque é visível, pena que todos os brinquedos estão desligados. Só a noite posso andar no bate-bate. A visão da Igreja é muito bonita a noite, quando as luzes que enfeitam sua fachada estão ligadas, como uma gigante árvore de natal iluminada constantemente.

Dentro da Matriz todos os bancos estão lotados, não há mais espaço, tanto que muita gente está do lado de fora para tentar participar da missa, mesmo que seja ouvindo. O altar está muito bonito, esse ano ornamentaram com flores brancas em grandes arranjos, até São Vicente, que fica num altar lateral, está com seu espaço ornamentado. Coitado, quase ninguém olha pra ele.

O Altar de Senhora Sant’Ana? Ah esse está a coisa mais linda do mundo. Os seis candelabros grandes mais antigos estão sobre o seu altar, arranjos com folhas caindo pendurados ao redor da Santa dão uma beleza harmônica espetacular. Cada devoto e afilhado de Sant’Ana ao chegar próximo ao altar fica encantado e feliz com o cuidado com tudo que leva a Deus.

Na sacristia a movimentação é grande, muitos padres da Diocese vieram para a missa solene, que será presidida por Dom Fernando. Tem padre aqui que nem sabia que existia. Coroinhas e seminaristas tem dois para cada padre presente. Será que vai caber todo mundo no altar? Padre Delorizano está nervoso, soltando fogo para todo lado, aparentemente alguém quebrou alguma coisa muito importante. Graças a Deus cheguei agora, mas alguém vai morrer hoje!

Tudo organizado e todos no seu devido lugar, vai começar a procissão de entrada, para iniciarmos a missa. Eu estava responsável pelo missal. Ia ficar próximo ao bispo durante toda a missa. Para uma criança que queria ser padre, isso era quase uma concelebração. O coral estava ainda mais afinado e com músicas sacras que enriqueciam ainda mais a celebração. O coro de São Cristóvão e de Sant’Ana se uniam todos os anos para cantar na missa solene. Era bonito!

– O Senhor esteja convosco.

– Ele está de meio de nós.

– Abençoe-vos o Deus todo poderoso: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

– Amém

– Ide em paz e o Senhor vos acompanhe.

– Graças a Deus.

Quando o Dom Fernando terminou a benção final uma das cenas mais bonitas acontecia, pois logo após o bispo convidava a todos para cantar o hino da padroeira e numa só voz. Centenas de pessoas cantando com fé, esperança e amor transcende qualquer coisa e arrepia. Ao olhar toda a nave da Igreja via caras conhecidas, minhas professoras da escola, os pais dos meus amigos, alguns dos meus amigos, todos fitados cantando e rezando.

O momento do hino era impagável e quando terminou, o bispo se voltou para o povo com algo ainda preso na garganta e falava em voz alta:

– Viva Senhora Sant’Ana!

– VIVA!

José Marques, Maceió, 25 de julho de 2014

Um domingo

domingo

Lembro-me dos meus domingos quando era criança, não era um dia como outro qualquer, era diferente. Alguma coisa o tornava especial.

Não acordava muito tarde, tinha um compromisso que não podia faltar, era a missa das crianças que começava pontualmente às 9 horas e 30 minutos, na Igreja Matriz de Senhora Sant’Ana. Eu era um dos coroinhas que ajudava na missa e depois nos batizados e casamentos. Foram muitos casamentos e batizados que ajudei, muitos!

Voltava pra casa perto do meio dia e quando lá chegava ia direto almoçar, sem peso na consciência e um grande vazio na barriga. Minha mãe gostava de mudar as refeições nesse dia. Macarronada, lasanha, almôndegas, bolo de ameixa com Coca-Cola, entre outras especiarias que Dona Régia sempre fazia aos domingos.

A programação da TV não era das melhores, ou era Domingo Legal com o Gugu e sua banheira mágica de onde sempre surgiam sabonetes sobrenaturais ou era o Domingão do Faustão com a sua magnífica ponte do Rio Que Cai e seus impagáveis vídeos cacetadas!

Às vezes quando minha mãe recebia suas amigas em casa para conversar, rir, ouvir músicas, jogar baralho, tomar uma cervejinha e comer petiscos, eu ficava sozinho assistindo o que eu queria, não era nada demais, já que não tínhamos antena parabólica ainda…

Impagável era brincar de pega-pega, esconde-esconde e sete cacos na rua, geralmente voltava todo ralado e sangrando muito de alguma queda. Naquele tempo a minha rua era do tamanho do mundo e Santana do Ipanema era o meu universo onde tudo acontecia e tudo era bom.

Quando a noite chegava, já estava em casa tomado banho e todo cheio de Mertiolate nas pernas, joelhos, braços e cotovelos. Era hora de assistir o Fantástico e depois o início do Topa Tudo por Dinheiro, que minha mãe nunca deixava assistir. Algumas poucas vezes eu assisti o início e em raríssimos (quase nunca (duas ou três vezes)) momentos assisti o programa completo.

Mãnhinha me convidava pra dormir sempre às 21 horas, pois no outro dia tinha aula e eu não poderia me atrasar. Compromisso é compromisso!

Acho que sei por que o domingo era um dia especial, ele era o único dia que passava com minha mãe por inteiro. Nos dias normais ela trabalhava o dia todo, eu acordava muito cedo pra ir para escola e ela ainda estava dormindo, quando acordava com o barulho que fazia enquanto me arrumava, ela me dizia do seu quarto: Bom dia, meu filho! Já tomou café da manhã? Não vá com fome! A tarde estava sempre ocupado com alguma coisa, era trabalho de escola, aula de reforço, educação física, jogando vídeo game, missa à noite e casa dos amigos, chegando em casa era banho, um pouco de TV e cama, e minha mãe ainda estava na rua trabalhando vendendo as joias do seu mostruário ou roupas. Quando ela chegava em casa eu já estava no 16º sono!

Domingo é sem dúvida um dia especial!

O dia em que conheci meu pai…

Como poucos sabem, cresci sem conviver com meu pai, das poucas lembranças que tenho dele, uma relatei aqui no blog, na postagem Pai!, eu sempre dizia que na primeira oportunidade que eu tivesse ia a Recife e iria conhecer esse outro lado da minha vida que nunca tive acesso.

A imagem de pessoa que tinha do meu pai foi passada por minha mãe, pois toda vez que fazia alguma estripulia ela dizia: Só pode ser filho do seu pai mesmo! Os mesmos “pantins” que ele tinha você tem!

Por um sopro do destino, precisei ir a Recife fazer um trabalho, que me ocuparia somente a parte da manhã, ficando livre o restante do dia, já que meu voo de volta, seria somente no dia seguinte.

Depois de algumas ligações para minha mãe, consegui algumas informações que precisava para começar a minha busca. A única informação que minha mãe tinha era o nome do antigo prédio onde meu pai trabalhava e morava, sendo que a última vez que ela esteve no local foi há 20 anos.

– Procure o edifício Continental, meu filho! Ele fica no centro de Recife.

Caramba, vai ser quase impossível encontrar alguma coisa! Recife é gigantesca, mas eu vou encontrar! Saí do hotel, procurei um taxi com o motorista mais velho que tivesse na frota. Senhor, preciso ir ao edifício Continental, lá no Centro. Saí cortando Recife, de Boa Viagem até o Centro, fui admirando aquela cidade com grandes prédios e história encantadora. A cada pessoa que via passando imagina que poderia ser algum parente…

Chegando no Centro, desci próximo ao edifício e indo em direção tive a leve sensação de já ter colocado pequenos pés naquele chão… Entrei no edifício e fui logo perguntando a um funcionário quanto tempo ele trabalhava ali.

– Trabalho aqui há 12 anos, moço!

– O senhor, já ouviu falar em José Marques, um morador antigo daqui, que era oftalmologista, alto e da barrigona?!

– Não, moço! Num é do meu tempo não. Mas o Raimundo, que é o funcionário mais velho daqui deve conhecer. É só falar com ele no elevador.

Quando o elevador abriu, não contei história e abordei logo a pessoa que lá estava:

– Boa tarde, Raimundo!

Contei sobre a minha busca e perguntei se ele conhecia o meu pai, ele olhou pra mim sem dar muita atenção e disse que não lembrava de ninguém com esse nome.

Não sabia muito o que fazer, ficava pra lá e pra cá dentro do prédio. Perguntei para um senhor que tem uma loja, ele disse que não sabia quem era, mas que o Raimundo poderia conhecer.

Dei uma volta ao redor do prédio e liguei para Dona Régia, minha mãe, falei o que tinha acontecido. Ela ficou de tentar lembrar mais alguma informação que me ajudasse, mas nada que poderia mudar o rumo dessa história. Antes de me despedir ela me indagou o porque de não ter levado uma foto dele. Esqueci mãe!

Já sei, eu tenho uma foto dele no meu celular! Quando lembrei esse detalhe importante, fui novamente ao elevador perturbar o seu Raimundo. Mostrando a foto ele imediatamente mudou o semblante e disse que gostava muito do Dr. Marques, que ele era uma pessoa muito querida por todos. Ele brincava com todo mundo!

– Agora, meu filho, tem muitos anos que ele não mora mais aqui. Muitos anos mesmo.

– O senhor não tem nenhuma luz que possa me ajudar a encontrar alguma coisa?!

Ele pediu para que eu entrasse no elevador que ia me levar pra uma sala que talvez lá alguém pudesse me ajudar com alguma informação. No final do corredor você chama o Beckman, que é contador.

Chegando lá, bati na porta e esperei um tempinho, quando ela se abriu, Beckman se apresentou e fui logo mostrando a foto e dizendo que buscava informações sobre o senhor da foto, que era meu pai. Ele quando viu a foto ficou surpreso e não acreditava naquilo que via.

– Tem como você me passar teu telefone. Daqui a pouco eu ligo pra você, dizendo alguma coisa.

Desci e fiquei esperando a ligação, pensando o quanto seria maldade ele não me dizer nada, pois tinha visto em seus olhos que ele conhecia meu pai. Ele estava mais surpreso que eu!

– Marques, tem como você voltar aqui?!

Subi imediatamente. Chegando lá, Beckman me apresentou ao seu irmão Ferdnand e sua cunhada Dagmar. Descobri então, que estava sentado com meus ex-cunhados e com grandes amigos do meu pai. Aqui descobri que meu pai já não estava vivo há 16 anos e que tinha cinco irmãs. Inclusive que uma já me aguardava ansiosa. Sua irmã Valéria quer falar com você. Enquanto esperava minha carona pra conhecer minhas irmãs, admirava Recife do alto do 11º andar do edifício continental, de um lado a Assembleia Legislativa de Pernambuco, do outro lado do rio Capibaribe estava o Palácio do Governo e o Palácio da Justiça.

Seu cunhado chegou! Entrei no carro com uma ansiedade muito grande, Eduardo, meu cunhado, estava com sua filha e de lá até a casa da minha irmã fomos conversando e trocando informações sobre as peripécias do meu pai.

Quando chegamos, já em Olinda, vi minha irmã Valéria na área da casa com sua mãe Vandelúcia, num abraço apertado e verdadeiro, tive a certeza que estava em casa…

Conversamos muito sobre as minhas outras quatro irmãs. Em Recife você tem duas irmãs e as outras três estão em Jundiaí, São Paulo! Vandelúcia, uma pessoa de coração grande, me contou muita coisa sobre o meu pai, inclusive a sua maneira particular de viver a vida. Meu filho, seu pai vivia o presente! Não queria saber do futuro, só do presente! Eu precisava ouvir tudo aquilo, pois ali eu conheceria um lado meu que não tinha explicação. Nos conhecemos, conhecendo nossos pais. Nossas origens.

A conversa foi longa, falei com uma irmã de São Paulo, a Gina, e conheci a Carmem, que também mora em Olinda. Com olhares demorados tentávamos nos encontrar um no olhar do outro. Terminamos a noite curtindo um bom forró e uma boa comida. Terminamos o encontro com a sensação que precisamos conversar mais, pois 25 anos de história, não se esgotam em algumas horas. Queria ter ficado um pouco mais, ter ouvido mais minhas irmãs e suas histórias de vida, conversado com meus sobrinhos, inclusive o mais velho de 20 anos, tem o meu nome, só que com Neto no final. Queria ter mergulhado mais nos olhos das minhas irmãs…

Ouvi as histórias que sempre tive curiosidade em ouvir, soube de algumas das aventuras do meu pai durante a sua juventude, ouvi as histórias de suas aventuras pelo sertão baiano e alagoano. Acabei me identificando em muitas de suas histórias.

Só queria ter tido a oportunidade de lhe conhecer pessoalmente, mas devido a diabetes que lhe ceifou a vida, não tive como… Queria tanto, ter ouvido essas histórias de sua boca, com seu tom de voz e com suas gargalhadas… Queria tanto um abraço… Só um abraço.

“Pai
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito”

“Pai
Você foi meu herói, meu bandido”

Fui pra Recife com 3 irmãs e dois sobrinhos e voltei com oito irmãs e 10 sobrinhos. Voltei com a família renovada e bem maior. Voltei feliz. Vim para Maceió com a certeza que irei voltar e curtir as minhas irmãs e meus sobrinhos, tanto em Recife como em São Paulo.

Eu disse que ia encontrar a minha família… Encontrei!

 

José Marques de Vasconcelos Filho

Maceió, 31 de outubro de 2012

†José Marques de Vasconcelos nasceu em 27 de dezembro de 1936 e faleceu no dia 29 de janeiro de 1996.

Escolhas

A vida é majestosa em suas peculiaridades, faz do homem um constante ser em evolução.

Desde pequenos, somos apresentados ao maior modelo de evolução da vida, que é a escolha!

Estamos sempre tomando grandes decisões, às vezes nem percebemos isso, e com ela a nossa vida vai tomando rumos diversos com a finalidade de chegarmos à felicidade.

Vários caminhos vão nos sendo apresentados ao longo da vida e muitos deles trazem grandes mudanças em nossas histórias. Sempre que escolhemos um caminho, deixamos outro pra trás e seguimos em frente na busca do nosso objetivo maior.

Nem sempre as escolhas que fizermos serão as melhores ou as corretas, mas o que importa é fazê-las e ao final não se frustrar por nunca ter tentado!

Alguém, e muitos, já disseram que nem sempre temos tudo o que queremos, mas o segredo é ter lutado pelo que mais desejamos e lutado até o fim.

Inevitavelmente, um dia todos nós teremos que escolher entre um caminho ou outro e nessa hora nós estaremos na mais profunda solidão, pois essa escolha nos pertence e a ninguém mais.

A tristeza de deixar algo que amamos no meio do caminho é profunda e nos acompanhará sempre, porém a felicidade de ter conseguido a realização pessoal é divina.

Acertar ou errar faz parte do jogo da vida e o medo muitas vezes é a maior barreira que nos impede de tentarmos.

Tudo não passa de escolhas!

O que você irá escolher?

José Marques, Maceió, 23 de março de 2011.

Quem nunca foi assaltado?

Alguns meses antes de concluir o ensino médio, todos os meus amigos de Santana do Ipanema, que estudavam no Colégio Cenecista Santana, começavam a decidir o que iam fazer depois do colegial. As dúvidas permeavam as mentes imaturas de muitos ali, outros, no entanto, já sabiam o que iriam fazer e ser. Eu era um deles, eu queria ser padre!

Lembro quando a professora Aida, de geografia, ainda no primeiro ano, perguntou na sala de aula o que faríamos quando terminássemos o terceiro ano.

– Professora, quero fazer medicina na UFAL!

– Eu quero ser professor, professora!

– Eu vou fazer zootecnia ou pedagogia na ESSER.

– Vou fazer história em Belo Jardim.

– E você Marques, o que vai fazer?! – Perguntou a professora Aida.

– Vou ser padre! Vou para o seminário em Palmeira dos Índios e depois para o seminário em Maceió. – Disse todo confiante.

Não demorou muito fui para o seminário em Palmeira dos Índios onde passei um ano e meio e logo em seguida fui para o seminário em Maceió.

No dia em que fui para o seminário de Maceió eu estava todo ansioso, pois ia morar agora na capital do Estado. Já tinha ido algumas vezes para Maceió, mas nada que dissesse: Nossa como ele vai muito pra Maceió!

– Marques, já arrumou a sua mala?

– Já, Mãe! Está pronta.

– Ótimo! Então venha comer alguma coisa antes de viajar. – Intimou a Dona Régia.

A mala estava com tudo que precisaria para começar a morar em Maceió, porém não estava levando muita coisa, já que aos pouco compraria por lá mesmo. Poxa vida, eu ia passar oito anos no seminário!

– Mãe, já vou indo, a besta chegou! – Disse já com a mala na mão.

– Vá meu filho! Vá com Deus.

– Amém. Bênção?

– Deus lhe cubra com o manto sagrado! Olhe, tenha muito cuidado em Maceió, viu?! Vá pensando que você está em Santana… Lá num é Santana, não.

– Eu sei, Mãe. Não se preocupe.

– É bom saber, vai que você chega lá e fica com essa cara de abobado olhando os prédios… Vai acabar se perdendo!

– Mãe, tenho que ir… Fica com Deus! Tchau… – Disse entrando correndo na besta.

Chegando à capital alagoana, a besta me deixou um pouco antes do prédio da Polícia Rodoviária Federal, ponto tradicional de parada dos transportes alternativos do Sertão. Outro ponto conhecido é o do Makro. Fiquei desnorteado, pois pensava que o motorista ia me deixar na porta do seminário! Agora lascou tudo!

– Calma, vai dar tudo certo! – Disse para mim mesmo num ato desesperado para acalmar meu coração!

Peguei a mala e fui para um ponto de ônibus que avistei de longe, perto de uma banca de revista. Chegando lá, não sabia qual ônibus pegaria e muito onde desceria, já que só tinha ido uma vez ao seminário e de quebra não decorara onde ficava. Tinha apenas uma lembrança muito vaga que ficava no bairro do Farol.

Como não tive a coragem de perguntar qual ônibus passaria pelo Farol, fui arriscar no primeiro que passasse descendo a Avenida Durval de Góes Monteiro. Na minha cabeça, todo ônibus que descesse por ali ia para o Farol.

Subi no Clima Bom/Iguatemi, paguei a tarifa de R$ 1,70 e fui sentar. O ônibus estava cheio, mas tinha um lugar sobrando lá no fundão. Foi lá que eu sentei.

Tudo estava tranquilo até que entraram pela porta de saída dois rapazes, um deles sentou do meu lado e o outro ficou em pé do lado do colega. Até então tudo bem, mas logo percebi que o rapaz do meu lado estava nervoso e observava muito a minha mala. Fiquei de orelha em pé e reagi puxando conversa com ele. Vou fazer amizade!

– Hoje é um dia para ir à praia, não acha? – Perguntei.

– Oi? Ah, sim. – Respondeu todo desconfiado o rapaz.

– Queria muito ir hoje à praia. Pena que não posso… Tenho que trabalhar!

– É assim mesmo!

– Com certeza um dia as coisas melhoram, num tá cá peste!

– É verdade. – Disse o rapaz rindo.

De repente o outro que estava em pé cutucou o seu colega chamando a sua atenção e com um gesto de cabeça fez com que ele me abordasse assim:

Véi, é mal aí, mas passa o celular!

– Como é?! – Disse tenso e tremendo.

– Passa logo, Véi, ou te furo aqui mesmo! – Falou o rapaz que estava em pé levantando a camisa.

Fiquei completamente assustado, nunca tinha passado por uma situação como aquela. Tirei o celular do bolso e entreguei. Quando o que estava sentado do meu lado ia se levando o que estava em pé disse:

– Passa o relógio também! Agora, Véi! – Disse todo valente.

– Não, Véi, já está bom! O cara é gente fina! – Disse o outro tentando “amenizar” o prejuízo do assalto.

– Cala a boca e pega logo essa merda!

– Aí meu, foi mal, mas passa o relógio também!

Depois que entreguei o relógio eles desceram no primeiro ponto que o ônibus parou.

Fiquei atordoado. Sem acreditar no que tinha passado naquele momento, desci na Praça Centenário e de lá peguei um taxi até o seminário. Depois de alguns minutos, assim que a ficha caiu, fiquei revoltado e xingando muito as duas figuras que acabaram de me dar às boas vindas para minha nova cidade!

José Marques

Santos – São Paulo, 28 de dezembro de 2011.

Preciso da minha terra

Preciso da minha terra

Que saudades da minha terra.
Lá um pedaço de mim ficou,
Ficou um pedaço do meu coração.

Preciso sentir novamente
A brisa fria santanense.
Preciso andar por suas ruas
Com asfalto ou não.

Preciso regar meu solo
Com lágrimas saudosistas.
Preciso queimar o rosto
Com o sol que dá e tira a vida no sertão.

Preciso rever os amigos…
Ah, amigos não precisam de definição.
Preciso chorar de rir
Daquelas velhas aventuras infantis.

Preciso ouvir Dona Maria
Chamando pra ir pra missa na matriz.
Preciso pedir a benção da minha mãe
Para dormir abençoado.

Preciso conversar com Deus
No alto da serra do Cruzeiro.
Preciso matar a saudade
E voltar pra minha realidade!

José Marques de Vasconcelos Filho
Maceió – 28 de março de 2011.

Amor de adolescente

Quem já teve um amor correspondido na adolescência, levanta a mão! Eu levanto, fazendo, assim, parte de um grupo de bilhares de adolescentes no mundo que choraram pensando em suas respectivas paixões, enquanto ouviam It Must Have Been Love, da Roxette, naquele bom e velho programa de rádio Love Time, ou em outros com nome semelhante.

O ano era 1996. O Brasil estava começando a conhecer o governo FHC, que entrava no seu segundo ano, quando fiz a 3ª série, no Instituto Sagrada Família. Tudo indicava que aquele ano seria tranquilo e sem muitas emoções, até porque o que seriam grandes emoções para alguém que tem apenas nove anos? Estava enganado.

– Marques, cuidado para não se atrasar! Não é bom perder o primeiro dia de aula.

– Estou quase pronto, mãe.

– É bom mesmo!

Minha mãe tinha acabado de preparar a minha lancheira, quando saí do quarto e peguei a minha mochila. Estava todo animado. Poxa, ia começar a terceira série, estava ficando velho…

O caminho da escola era divertido, pois até lá eu tinha que passar por três confortáveis ladeiras e chegar, além de todo suado, cansado para a aula. Mas nada que tirasse a alegria de reencontrar com os amigos e colegas de turma.

– E aê, Juádley, vai sentar com quem?

– Vou sentar com Thiago de França e você?

– Ainda não sei. Vou sentar nessa banca e esperar.

As bancas escolares do Sagrada Família tinham um espaço para duas pessoas, o que na época nos ajudava no aprendizado sobre o limite que cada indivíduo tem, ensinando-nos a sempre respeitar o espaço do colega do lado. Naquele ano, dividi a banca com o Hevert, que mais tarde, no ginásio, teria a fama de “agorador”, porque colocava ou procurava algum defeito em tudo que via.

As coisas estavam dentro do padrão, até que entra na sala uma menina de pele clara e cabelo preto, aparentando ser um pouco mais velha que eu, mas nada que fosse tão perceptível. Um rosto que me chamou atenção.

Estava inquieto e queria saber quem era aquela menina que acabara de entrar, mas poucos sabiam informar. Até que na hora do recreio eu descobri.

– Ei, quem é aquela novata?

– A Raphaela. Ela é filha de uma professa aqui do Sagrada.

-Hum. Ela é legal?

– Ela? É valente! Vá tirar onda com ela não.

De fato, ela tinha um gênio muito forte, o que hoje, nós adultos, chamamos de personalidade. Pena que eu viria a descobrir da pior maneira possível.

Eu estava apaixonado. Não sabia como e muito menos porquê, só sabia do sentimento que do meu ser tomava conta. Sentia um friozinho na barriga toda vez que encontrava com ela fora da escola. Tudo que ela fazia eu achava a coisa mais linda do mundo, até os gritos que ela dava quando falava com alguém soavam como música no último volume.

Em casa, eu chorava copiosamente, não por ter levado um não, mas simplesmente por gostar dela, uma coisa que hoje acho sem sentido, mas tudo bem. Naquele tempo, tinha na rádio Santana FM, em Santana do Ipanema, um programa muito famoso entre os apaixonados sertanejos. O programa era o Love Times. Sim, eu mandei algumas milhares de cartinhas para o programa.

– Estamos de volta com o programa, Love Times. A emoção está no ar! Vamos ler agora mais uma cartinha de amor, que vai de um alguém todo apaixonado, na rua Professor Enéas, para seu grande amor, que está lá no bairro do Monumento.

Tentei ao máximo não revelar a minha paixão secreta por ela, o que consegui fazer por alguns anos, porém acabei compartilhando esse meu sentimento com um amigo que era primo dela. Júnior Lamarck não conseguiu guardar o meu singelo segredo e me fez o agradável favor de contar para algumas pessoas e para toda a torcida do Flamengo, inclusive para a própria Raphaela.

Um dia qualquer, na hora do recreio, eu tinha ficado na sala conversando com Juádley e Thiago de França, quando começou uma conversa no fundo da sala, acompanhada de grandes e boas risadas. Eu estava curioso, porém não dei muita atenção, até que escuto de longe algo sobre o meu segredo.

– E aê, Rapha, tem chances? – Perguntou alguém apontando pra mim com os olhos.

– O Marques? De jeito nenhum! – Disse Raphaela, me presenteando com o primeiro não da minha vida.

Quando ouvi aquilo, tentei fingir que não tinha acontecido nada, saí da sala e fui para o pátio dar uma volta e tentar encontrar alguma desculpa para aquilo tudo. Nada encontrei.

Depois da aula, fui direto para casa com a cabeça no mundo da lua, pensando no fora que tinha levado sem ter pedido. Chegando em casa, liguei o rádio e rezei para que o dia todo só tocasse as músicas mais melosas do planeta. Queria chorar… E chorei!

Depois disso, continuei apaixonado por ela, pelo menos até sair do Sagrada Família e ir estudar no Cenecista Santana, quando conheci outras meninas e vivi outras paixões. Todas não correspondidas, diga-se de passagem.

José Marques, Maceió 12 de dezembro de 2011.

Ser amigo…

Amizade é a filha mais velha do amor! É verdade, pois a amizade herdou de sua mãe tudo o que podia, e só não herdou o nome, por questões de variedades.

Amigos são para todos os momentos, não digo aqui, que eles têm a obrigação dividir conosco todos os momentos felizes e tristes… Eles têm o prazer de estar conosco sempre!

Uma frase clássica diz que irmãos nós não escolhemos, já amigos… Escolhemos a dedo. Podemos ter uma lista grande de irmãos na família, mas muitas vezes, infelizmente, não nutrimos uma amizade por eles. Acontece!

Ser amigo é sacanear o outro e os dois rolarem no chão de tanto rir da situação… Ser amigo é chorar de emoção pela vitória do outro… Ser amigo é acompanhar o outro em momentos difíceis e não falar nada, pois a presença já vale por mil declarações de amizade…

Ser amigo é dar tapinhas nas costas de aprovação e dar puxões de orelhas para o crescimento e evolução… Ser amigo é ligar pro outro e dizer: Liguei só pra matar a saudade… Ser amigo é amar!

José Marques, Maceió, 19 de março de 2011.

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